Dona Odete, mestra da cultura pernambucana

Dona Odete, patrimônio vivo da cultura pernambucana

Dona Odete, patrimônio vivo da cultura pernambucana

Inacreditável, mas já se foram 10 anos desde que escrevi pela primeira vez sobre Dona Odete, mestra da cultura pernambucana; foi neste post: Como valorizar o trabalho do artesão.

Agora, com 92 anos, 75 deles dedicados à renda renascença, Dona Odete recebeu uma homenagem especial ao ser a personagem central do catálogo sobre a técnica publicado recentemente pelo FUNDARPE. Vamos saber um pouco de cada detalhe?

Atualização inesperada

Comecei a escrever este texto na primeira quinzena de março, e dias depois já começamos a nos preocupar com as notícias da pandemia. O andamento da quarentena me colocou forçosamente outras prioridades e o texto final está saindo apenas agora. Mas penso que estamos todos nessa vibe ainda :/

Esse momento me fez refletir sobre o quanto se torna urgente proteger a sabedoria dos mais velhos, mantendo-os saudáveis, ativos e envolvidos, próximos de nós para que possamos aprender com seu conhecimento e desfrutar da sua presença.

Escrever sobre Dona Odete agora é mais do que necessário, é prova de que estaremos sempre correndo contra o tempo se não soubermos aproveitar cada instante de oportunidade e aprendizado. A bandeira é #valorizeoidoso que está próximo de você; é urgente.

Dona Odete, mestra da cultura

Dona Odete é história viva, história da renda renascença. História de antigas comunidades do interior nordestino, de seus hábitos sociais e culturais e de como sobreviviam e geravam sua fonte de renda. Sua trajetória também é uma história de empoderamento.

Dona Odete tecendo suas rendas coloridas

Nascida em Poção/PE, Dona Odete estava entre as rendeiras do pequeno vilarejo. Elas faziam parte de um grupo de mulheres que era um núcleo econômico e artístico local. Acredite, aquele grupo seria responsável por uma transformação na região e foi criado e aproximado por mestra Lála, a rendeira Elza Mendes Medeiros.

Lála, com sua curiosidade e talento nato, aprendeu a arte da renascença com as freiras da Congregação Filhas da Caridade de São Vicente de Paulo. E Lála tinha muito jeito e muita disposição pra ensinar outras mulheres, entre elas Dona Odete, que hoje é uma das 3 rendeiras vivas daquele grupo.

Consciente disso e da preservação da história, Dona Odete, com muita lucidez, relata os encontros delas e como, em meados de 1936/1938, vendiam suas rendas para ajudar no sustento de casa e serem agentes modificadores daquele momento comercial e econômico da pequena cidade. Mulheres valorando outras mulheres.

Cultura exercitada em sigilo

Preste atenção pro fato de que lá no comecinho a renda era trabalhada no sigilo do convento. Não era permitido passar o conhecimento, a técnica não podia sair daqueles muros, como fosse um grande e especial segredo acessível só aos escolhidos.

A cultura da renda renascença, viva nas mãos de Dona Odete

Lála desobedeceu estas regras e sua atitude arrojada foi responsável por criar oportunidades para outras mulheres do agreste pernambucano que sofriam com os difíceis tempos de seca. A renda tornou-se a alternativa salvadora e, tão importante quanto, a expressão cultural daquelas mulheres e daqueles povoados.

O empoderamento era tanto que o grupo crescia em pedidos e encomendas. E arregimentava mais mulheres. Não se tramavam pontos por hobby mas sim pelo negócio que aquelas mulheres alimentavam com sua arte.

Que exemplo, que energia e consciência de unidade e força para uma região tão sofrida.

Trabalho de uma vida

Dona Odete fala um pouco sobre sua história com a renda renascença

Os anos passaram e entre suas andanças e desafios pessoais Dona Odete foi morar em Pesqueira, escolheu ensinar quem quisesse aprender e chegou a ter 40 alunas sob sua batuta.

Hoje Dona Odete ainda tece suas tramas em casa como fez por 75 anos mas mantém o trabalho de outras rendeiras que a auxiliam a elaborar as rendas que participam das edições da Fenearte, um dos eventos de artesanato e arte popular mais importantes do país.

Assim a mestra se mantém ativa e mantém viva a arte e a proposta de negócios que esta atividade possibilita.

Dona Odete no lançamento do catálogo de cultura

O catálogo

O catálogo foi idealizado pelo fotógrafo Felipe Cândido, organizado por Tereza Franco, e seu lançamento teve um lindo evento com exposição de peças de Dona Odete.

Uma das peças fotografadas para o catálogo da renda renascença

Também contou com a participação de alunos de Gastronomia do Senac que receberam o desafio de confeitar um bolo com estilo da renda renascença. Alunos de outras graduações como Design de Moda também se envolveram no projeto. Tudo para homenagear a mestra e esta belíssima técnica, patrimônio da cultura pernambucana.

“Nunca pensei que meu trabalho era tão importante. Fico muito feliz com essa homenagem. É gratificante receber tantos elogios. Para mim, é um grande prazer trabalhar com a renda renascença e saber que, agora, outras pessoas vão conhecer um pouco mais sobre essa história. Afinal, quando eu morrer, não tem mais quem conte”

destaca dona Odete, agradecendo à Faculdade Senac por apoiar o lançamento.

Dona Odete me enviou um catálogo

E eu, aqui pela Vila do Artesão, mais que agradeço em poder falar sobre este evento e divulgar o catálogo com essa homenagem tão merecida.

Agradeço imensamente também, ter recebido um volume autografado, yeahhh 😀 e com tanta informação e imagens tão belas. Dona Odete, você é sempre uma querida, sou e serei sua fã e deste talento e exemplo maravilhoso.

Por fim

Você que sonha em ter uma peça maravilhosa em renda renascença, quer seja pra seu uso pessoal ou para sua casa, leia mais informações nas seguintes matérias:

A tiragem do catálogo foi de 1000 unidades e infelizmente não está disponível para venda.

Fotos: 1,4 e 5. Andréa Franco e Felipe Cândido, 2 e 3. Clébia Nóbrega
Vídeos: Clébia Nóbrega

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4 Responses to Dona Odete, mestra da cultura pernambucana

  1. Gra 13 de junho de 2020 at 12:03 #

    Que linda, amei a matéria!!!

    • Cris Turek 18 de junho de 2020 at 18:44 #

      Obrigada Graziela, Dona Odete é uma jóia rara.

  2. ARLINI SALGADO 4 de junho de 2020 at 18:45 #

    Que história linda da Dona Odete veras pessoas idosas com essa força que ela esta é muto gratificante
    poucos tem essa força de vontade parabéns D. Odete

    • Cris Turek 5 de junho de 2020 at 17:38 #

      Não é mesmo, Arlini? E todos os anos ela participa da feira Fenearte em Recife, que é gigantesca. Super exemplo e energia 🙂

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